terça-feira, 24 de março de 2009

Investimento em Ciência também traz Felicidade

Por mais de três séculos o Brasil amargou o triste papel de colônia importadora de tudo o que houvesse de pronto, de sapatos a maquinário pesado, fornecendo ao reino de Portugal tudo que fosse bem primário, sem que houvesse o mínimo do mínimo de tecnologia empregado no processo de manufatura. Curiosamente, o ouro era processado aqui e enviado na forma de lingotes, assim como vários tipos de minérios, como o ferro, muitas vezes processado na antiga fábrica de armas de Sorocaba. Vergonhosamente, também não havia também universidades no país, muito embora na América espanhola já houvessem várias, e, por conta disso, exportamos também nossas melhores cabeças para Portugal e outros países, ficando nossa, vá lá, elite intelectual, bastante desfalcada. Porém, findado o período colonial, não houve progresso no sentido de incrementarmos nossa indústria não indo além da exportação da matéria bruta. Continuamos na mesma na pós-alforria de Portugal.

Com a proclamação da república, já quase entrando no século XX, ficou tudo na mesma. A cana-de-açúcar, o café, o ciclo da borracha todos, em maior ou menor grau, contribuíram para que tudo permanecesse como sempre: exportando o básico e mandando lavar roupa em Lisboa. O mundo nos mandava tudo. Delivery!

Ao longo do século XX, apesar de não sermos mais colônia de ninguém e já sermos uma república, ainda que na forma de Estados Unidos, continuamos como meros exportadores de matéria-prima, exportada sem nenhum tipo de processamento, quase tão bruta como quando foi obtida na natureza. Apenas na década de 30, depois da quebra da bolsa, e do mundo, é que surge a primeira Universidade, tal qual aquele conceito de Bologna de uns 700 anos antes.

Por pressão dos Estados Unidos, não entramos na Segunda Guerra pelo lado alemão. Em troca de abdicarmos do fascismo, ganhamos uma siderúrgica. Este fato, ainda que isolado por se tratar de uma única fábrica é notável para o nosso incipiente parque tecnológico. A partir dele, aliado ao nacio-populismo da década de 50, começa no país uma revolução industrial. Indústrias chegam cada vez em maior número, necessitando de mão-de-obra cada vez mais especializada. O mero apertador de parafuso não serve mais, pois é necessário que ele produza o parafuso, além de apertar é claro. O ensino deve ser universalizado. Do básico ao superior. Na década seguinte, apesar da ditadura ou por causa dela, criam-se dezenas de universidades federais pelo país afora. Estaduais também. Tem início o ciclo tecnológico no país. Paralelamente, o Brasil ufânico, a potência do futuro, aflora como propaganda da ditadura. Investimentos maciços em produção energética são feitos; hidrelétricas são construídas, pontes são feitas, estradas, portos, aeroportos, tudo que significasse grandiosidade era incentivado e financiado. Dinheiro não era problema, pois emprestar mundo afora era moda. É o Brasil do futuro tentando nascer.

Porém, tudo o que é bom dura pouco. Assim, na primeira crise do petróleo, o Brasil se viu numa situação crítica e, de modo a deixar todos os críticos pasmos, tomou uma atitude nunca antes vista nesse país: antecipou-se às futuras crises! Criou um programa único no mundo de substituição de matriz energética, tentando encontrar um substituto viável ao petróleo. Trocar o petróleo por álcool, vindo da cana-de-açúcar tão conhecida de todos, parecia loucura na época, mas era uma possível solução e tão logo foi possível criou-se o Pro-álcool. Programa único, que necessitou de milhões de dólares de investimento e décadas de esforço humano para que se torne viável. Pela primeira vez investia-se numa cadeia completa de produção indo da matéria básica, colhida no campo, até o produto final, na bomba de combustível.

Porém, fazer álcool se transformar em combustível não era e nem é tarefa das mais complexas, mas por outro lado, produzir tecnologia, isto é, um carro com motor que pudesse rodar com esse combustível era outra coisa. Muito mais difícil. Nesse ponto entram em operação as Universidades instaladas no país nas décadas anteriores, os institutos de pesquisa e tecnologia. Sem eles não teria sido possível essa transformação tecnológica, que ainda ocorre nos dias de hoje já que melhores desempenhos são cada vez mais exigidos, impondo constantes melhorias nos projetos em andamento.

Fica claro, nesse exemplo banal, que a tecnologia depende de investimentos diretos em formação de pessoal e equipamentos, que pode parecer dispendioso, porque a primeira vista não trás resultado algum, mas que uma geração depois pode fazer diferença para toda uma linha de produção e para todo um país, trazendo investimentos estrangeiros e tornando-nos exportadores de tecnologia, cujo valor financeiro final é imensamente maior que a exportação de bananas.

Tecnologia e desenvolvimento social andam de mãos dadas, sempre que há interesse é óbvio. Interesse da sociedade civil e governamental.

Produzir ciência não implica em produzir tecnologia e muitas vezes é necessário esperar décadas entre a teoria do objeto e o objeto em si. Porém, ciência produz cientistas, óbvio ululante, que podem ajudar na democratização de idéias, na popularização de temas. Ou seja, a ciência pode ajudar a produzir uma sociedade mais consciente daquilo que ela necessita. A tecnologia é conseqüência daquilo que se quer enquanto sociedade. Desta forma, a ciência ajuda a educar a sociedade que ajuda a escolher que tecnologias quer utilizar para enfrentar o mundo, isto é, as outras sociedades organizadas segundo o seu modo de vida. Nos dias de hoje quanto mais limpa for a tecnologia melhor para todos. Cientistas ou não.

No Brasil, apesar de todo o atraso visto acima, estamos assumindo uma liderança expressiva na matriz bioenergética. Reciclamos alguns materiais em índices acima de paises considerados desenvolvidos. Evidentemente, temos um caminho muito longo ainda para percorrer em busca de melhorarias sociais, mas este caminho poderá ser suavizado ou, quem sabe, encurtado, caso investimento sejam feitos em ciência básica, prevenção de doenças, saneamento básico e educação. Depois desses passos básicos talvez, quem sabe, possamos voar.

Por Sérgio Campos, matemático e físico.

Um comentário:

Mariana disse...

Se um país produz coisas e tem industria, faz crescer a economia e da trabalho aos cidadãos.
Sempre é bom um espírito empreendedor e eu conheço muitos delivery pela internet que começaram de a pouco e agora tem muitos clientes.