terça-feira, 24 de março de 2009

Para se entender no mundo

O papel da alfabetização em ciência e tecnologia ultrapassou em muito a finalidade de produzir conhecimento de forma racional e metodológica e, também, de estimular o desenvolvimento econômico das nações. No último século tornou-se um instrumento de inserção cultural, econômica e de pertencimento ao mundo.

Nas últimas décadas a percepção a respeito da importância de se ensinar e aprender Ciências tem se alterado profundamente. Essa mudança reflete uma aproximação das Ciências do dia-a-dia das pessoas. Essa aproximação se dá mais no âmbito dos efeitos dos produtos da ciência e tecnologia em nossas vidas do que, propriamente, no fazer Ciência.

Em uma perspectiva mais ampla, podemos perceber que a preocupação em aproximar ciência, tecnologia e sociedade não se restringe à escola e ao currículo formal das disciplinas da área de ciências da natureza. Esta tendência apresenta-se nas diversas ações de divulgação nos museus, nos centros de ciência e tecnologia, em programas de televisão, revistas, internet e jornais voltados ao grande público.

A importância da ciência e tecnologia na sociedade atual produziu um importante movimento denominado “ciência, tecnologia e sociedade” que tem influenciado, por exemplo, no âmbito educacional, as reestruturações curriculares no estado de São Paulo e no país. Essa tendência leva em consideração o impacto atual da ciência na tecnologia, desta na indústria, na saúde, na natureza e, de modo geral, na qualidade de vida, envolvendo uma visão interdisciplinar que desconsidera a compartimentalização do conhecimento entre áreas distintas.

Tanto destaque à ciência e tecnologia nos faz questionar: qual a importância de ensinar e aprender ciências para a formação básica dos brasileiros?

Uma parte da resposta é conhecida desde a década de 1950, com os trabalhos de Robert Solow. Segundo esse economista, o desenvolvimento econômico e sustentado de um país depende de diversos fatores, entretanto, o progresso tecnológico promovido pela educação contribui mais para o crescimento econômico do que o aumento dos capitais ou da força de trabalho.

Mas, a busca de um desenvolvimento econômico e sustentado não é a única razão para se promover a alfabetização científica dos brasileiros.

Podemos compreender que esse tipo de alfabetização integrado à educação básica deve servir, também, à formação de pessoas que possam participar e usufruir das oportunidades, das responsabilidades e dos desafios inerentes a uma sociedade na qual a influência da ciência e tecnologia se faz cada vez mais presente.

É preciso, portanto, que os cidadãos sejam capazes de, com base em informações e análises bem fundamentadas, participar das decisões que afetem suas vidas, organizando um conjunto de valores mediado na consciência da importância de seu próprio aperfeiçoamento e no das relações sociais e socioambientais.

A formação de cidadãos com este perfil pressupõe o desenvolvimento de algumas competências, entre as quais cito três, para que possa dar seguimento a esta análise. São elas: construir representações simbólicas sobre fenômenos da natureza; analisar e se posicionar em relação a fatos científicos e tecnológicos e expressar-se e comunicar-se utilizando diferentes linguagens para expor seus julgamentos de valor.

Exige-se assim, que as pessoas tenham capacidade analítica e investigativa para chegar a uma decisão a respeito de situações que envolvam a natureza, a sociedade, a ciência e a tecnologia, tenham capacidade de comunicação para ouvir, interpretar e expressar diferentes pontos de vista e utilizem sua imaginação para colocar-se no lugar do outro, compreendendo concepções, argumentos e pontos de vista diferentes dos seus com sensibilidade e sem preconceitos.

Tais capacidades não são inerentes às pessoas, porém podem ser desenvolvidas pela educação e, em particular, pelo ensino de ciências. Isso porque, a ciência pode ser caracterizada como uma forma própria de pensamento e construção de conhecimento com profundas implicações no desenvolvimento sociocognitivo das pessoas.

Favorecer a alfabetização em ciências tem por funções principais a formação de pessoas capazes de, não apenas identificar o vocabulário da ciência, mas principalmente compreender conceitos e utilizá-los para enfrentar desafios e refletir seu cotidiano.

Tomemos como exemplo uma das principais características da linguagem científica, a precisão, ou seja, a capacidade de transmitir informações e conceitos relevantes de forma objetiva, com um mínimo de recursos ou texto. Essa é uma capacidade que se desenvolve ao longo de anos de formação e, cuja importância, não se restringe aos profissionais da área de ciências. Portanto, deve ser desenvolvida desde muito cedo e ao longo de toda a formação básica.

Outro pressuposto importante relacionado ao ensino de ciência é fazer com que as pessoas desenvolvam a competência de fazer pesquisa que, neste contexto, podemos considerar: aprender de forma independente e autônoma um tema ou um procedimento que não se conhece. Com o desenvolvimento desta competência espera-se que o indivíduo consiga organizar seus conhecimentos e seu trabalho de forma que a observação seja criticamente constante e que ele possa recuperar informações obtidas anteriormente. É necessário revisitar, constantemente, seus conhecimentos e concepções. É preciso ser capaz de tirar conclusões do seu trabalho, saber argumentar em favor delas e acolher os argumentos contrários. É preciso compreender a importância do erro, na tentativa de superar seus limites e reavaliar suas concepções.

Dessa forma, tanto a capacidade investigativa quanto a de comunicar-se de forma eficaz são competências que podemos compreender como modalidades estruturais da inteligência, ou melhor, ações e operações que utilizamos para estabelecer relações com e entre objetos, situações, fenômenos e pessoas que desejamos conhecer.

Podemos então deduzir que o desenvolvimento de habilidades e competências, aparentemente, do domínio da ciência pode produzir profundos efeitos na formação de qualquer pessoa. Como resultado, espera-se que esse processo de alfabetização conduza a uma mudança que envolva a vida e a responsabilidade pessoal do sujeito frente à construção de seu conhecimento.

A importância de ensinar e aprender ciências reside na possibilidade de criar oportunidades para que as pessoas construam seus saberes e na esperança de que estes saberes, construídos continuamente, lapidem a relação entre o sujeito e seu mundo.

Por Paulo Cunha.

2 comentários:

Leticia disse...

simplesmente perfeeito *-*

Leticia disse...
Este comentário foi removido pelo autor.